Seminário na Unicamp coloca em debate novos caminhos para a segurança universitária

Autoria Claudio Moreira
Fotografia Claudio Moreira
Publicado29 de setembro, 2026 · 8 min de leitura
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Encontro reúne pesquisadores e gestores para discutir prevenção das violências, convivência e modelos de segurança compatíveis com a autonomia e a diversidade das universidades

Vista ampla do auditório com participantes voltados para a mesa de abertura; à esquerda, o cartaz do seminário é projetado em uma tela.
Público acompanha a abertura do Seminário Nacional Segurança nas Universidades: Tensões e Debates.

Como construir universidades mais seguras sem abrir mão da autonomia, da convivência democrática e da liberdade que caracterizam o ambiente acadêmico? A questão esteve no centro da abertura do Seminário Nacional Segurança nas Universidades: Tensões e Debates, realizado na Unicamp com a participação de pesquisadores, gestores e representantes de instituições de ensino superior.

O encontro parte de uma constatação compartilhada pelos participantes: os campi não estão isolados das transformações e dos conflitos que atravessam a sociedade. Violência política, criminalidade, intolerância, discursos de ódio e diferentes formas de agressão também chegam às universidades e impõem novos desafios à gestão, à pesquisa e à própria comunidade acadêmica.

Mais do que discutir vigilância ou proteção patrimonial, o seminário propõe ampliar o significado da segurança universitária, incorporando temas como prevenção, acolhimento, direitos humanos, mediação de conflitos, inteligência e convivência.

Participaram da mesa de abertura o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner; o diretor executivo de Administração, Flávio Henrique Baggio Aguiar; o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Ronaldo Rômulo Machado de Almeida; a coordenadora da Secretaria de Vivência nos Campi, Suzana Soares Branco Durão; e Geovani Jacó de Freitas, coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Conflitualidade e Violência da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Um modelo construído a partir da vivência universitária

Ao abrir as manifestações, Suzana Durão situou o seminário dentro de um processo iniciado na Unicamp em 2017. Desde então, segundo a coordenadora, a Universidade vem buscando consolidar um modelo próprio de segurança, baseado na atuação não armada e na gestão institucional das situações que ocorrem nos campi.

Suzana Soares Branco Durão fala ao microfone na mesa de abertura, com o cartaz colorido do seminário projetado atrás dela.
Suzana Soares Branco Durão fala durante a mesa de abertura do seminário.

A proposta foi acompanhada pela criação e pelo fortalecimento de uma área dedicada à vivência universitária, capaz de articular a atividade operacional de segurança com projetos de prevenção, relacionamento e aproximação com as comunidades.

Com a estabilização das estruturas operacionais e de monitoramento, explicou Durão, tornou-se possível ampliar esse trabalho e enfrentar de maneira mais aberta questões que frequentemente produzem tensões dentro da Universidade.

O seminário, nesse contexto, representa também uma escolha de trazer essas divergências para o espaço público e acadêmico, ouvindo diferentes segmentos sobre que tipo de segurança a universidade deseja construir.

“Vamos debater qual é esse problema, como os vários representantes da comunidade estudantil e dos servidores consideram e querem a segurança universitária, o que é interessante ter segurança universitária, em que medida e como.”

A discussão, portanto, não parte de uma resposta pronta, mas da necessidade de construir políticas que considerem as características próprias do ambiente universitário.

Universidades não estão isoladas das cidades

A relação entre o que acontece dentro e fora dos campi também apareceu na experiência apresentada por Geovani Jacó de Freitas, da Universidade Estadual do Ceará.

Segundo o pesquisador, as universidades são diretamente atravessadas pelas dinâmicas sociais e criminais existentes em seus territórios. Na Uece, o impacto da violência no cotidiano acadêmico levou à criação de uma comissão de segurança e, posteriormente, à discussão de um plano institucional.

A pergunta que orientou esse processo foi justamente qual modelo de segurança a comunidade desejava.

A partir desse debate, a universidade cearense passou a construir uma proposta que incorporasse diferentes perspectivas e encontrou na experiência da Unicamp uma referência para o desenvolvimento de seu próprio plano.

A aproximação resultou em um acordo de cooperação técnica entre as duas universidades, envolvendo intercâmbio de experiências, missões de trabalho e diálogo entre pesquisadores e equipes técnicas.

“Estamos, de fato, tentando construir um modelo que seja de acolhimento, de cuidado, também de prevenção e de combate, naqueles casos de ilicitudes, com fundamento muito na mediação, na prevenção e no uso de inteligência.”

Para Freitas, a cooperação institucional permite justamente compartilhar respostas diante de um problema que, apesar das particularidades de cada universidade, apresenta desafios comuns.

Como resistir sem reproduzir a violência?

Ao abordar a experiência do IFCH, Ronaldo Rômulo Machado de Almeida chamou atenção para a variedade das violências que podem aparecer no cotidiano universitário — políticas, sexuais, de gênero, morais e criminais.

Entre elas, destacou especialmente episódios de violência política que atingiram unidades das áreas de Humanidades.

A resposta construída ao longo dos últimos anos envolveu, entre outras ações, a elaboração de protocolos para situações de conflito. Um dos principais desafios, segundo Almeida, foi estabelecer formas de reação que permitissem enfrentar ataques sem produzir uma escalada da própria violência.

“Não cair na violência, ao mesmo tempo resistir. Como elaborar isso? Uma situação de tensão. Conseguimos implementar [um protocolo] e várias pessoas se inspiraram para saber como combater, como reagir no momento e evitar a violência.”

O diretor do IFCH também apontou três frentes adotadas diante desses episódios: o monitoramento digital para compreender e antecipar ações de grupos organizados; a utilização dos instrumentos policiais e jurídicos disponíveis; e a articulação de uma rede entre instituições e unidades da área de Humanidades.

Nesse processo, ressaltou a importância do trabalho de pesquisa realizado na Universidade e do apoio institucional oferecido pela Reitoria e pela Procuradoria Geral.

A experiência evidencia uma dimensão presente ao longo de todo o seminário: compreender fenômenos de violência também exige produção de conhecimento.

Ideias precisam florescer em ambiente de respeito

Para o diretor executivo de Administração, Flávio Henrique Baggio Aguiar, discutir segurança significa também preservar as condições necessárias para que a própria Universidade cumpra sua missão.

Em sua manifestação, Aguiar ressaltou que diversidade, debate de ideias e inovação dependem da existência de um ambiente no qual as pessoas possam conviver com tranquilidade e respeito.

O seminário ocorre, segundo ele, em um momento particularmente desafiador, marcado pelo fortalecimento de intolerâncias e radicalismos de diferentes naturezas.

Nesse cenário, a Universidade precisa buscar respostas coletivas e políticas capazes de proteger sua comunidade sem restringir a pluralidade que caracteriza o espaço acadêmico.

“Que possamos sair daqui com uma política inovadora, com novas ideias, para que a gente possa vencer as intolerâncias, o radicalismo e a criminalidade.”

Aguiar também destacou a trajetória construída pela Secretaria de Vivência nos Campi e sua contribuição para a formulação de políticas que hoje despertam interesse de outras instituições.

“Não podemos tratar isso como uma bolha”

Ao encerrar a mesa de abertura, o reitor Paulo Cesar Montagner defendeu que a segurança universitária seja tratada como um campo permanente de investigação, reflexão e construção institucional.

Ao recuperar a trajetória da Unicamp desde 2017, Montagner observou que o modelo atual foi sendo estruturado a partir da combinação entre a experiência acumulada pelas equipes e a incorporação de conhecimento científico sobre o tema.

O desafio, porém, continua em transformação. Diferentes momentos podem colocar a Universidade diante de diferentes formas de violência, o que exige capacidade permanente de análise e adaptação.

Por isso, na avaliação do reitor, encontros como o seminário não devem ser iniciativas isoladas. A segurança precisa permanecer como tema de pesquisa e de intercâmbio entre universidades.

“Os nossos campi universitários são mundos diferentes, mas, ao mesmo tempo, eles não estão apartados da vida real. Então, não podemos tratar isso como uma bolha. Nós temos que aprender a lidar com essas interfaces.”

Montagner também ressaltou que modelos centrados apenas na preservação patrimonial são insuficientes diante da complexidade dos desafios contemporâneos.

A resposta passa, segundo ele, pela existência de estruturas permanentes, pela produção de conhecimento e pela capacidade das instituições de aprender umas com as outras.

Segurança para além da vigilância

As diferentes experiências apresentadas na abertura convergiram para uma compreensão mais ampla do que significa segurança no ambiente universitário.

Em vez de reduzi-la à vigilância, o debate coloca em primeiro plano a prevenção, a mediação, o acolhimento, o conhecimento científico e a construção de relações de confiança com a comunidade.

A questão que percorre o seminário, assim, não é apenas como proteger fisicamente uma universidade, mas que universidade se pretende proteger — e quais políticas são capazes de conciliar segurança, diversidade, autonomia, direitos e convivência democrática.

O Seminário Nacional Segurança nas Universidades: Tensões e Debates é uma iniciativa vinculada às ações da Secretaria de Vivência nos Campi da Unicamp e reúne diferentes perspectivas para refletir sobre os desafios da segurança no ensino superior.

Imagens e audiodescrição

Jacqueline Muniz fala ao microfone diante de slide intitulado ‘Policiamentos no campus universitário’; sua sombra aparece na projeção.
Jacqueline Muniz apresenta palestra sobre policiamentos no campus universitário.

A narração integral inclui audiodescrição das três fotografias. As descrições também estão transcritas abaixo.

Transcrição da audiodescrição

Audiodescrição das fotografias do Seminário Nacional Segurança nas Universidades: Tensões e Debates.

Foto 1. Vista ampla do auditório, feita a partir do fundo da sala. Pessoas ocupam fileiras de cadeiras voltadas para uma mesa de madeira, à esquerda, onde três participantes estão sentados. Ao lado da mesa, uma projeção mostra o cartaz do seminário. O teto é iluminado por várias luminárias e a parede lateral direita é azul.

Foto 2. Suzana Soares Branco Durão fala ao microfone, sentada atrás de uma mesa de madeira. Um homem de cabelos grisalhos está sentado à sua direita. Atrás deles, uma tela exibe o cartaz colorido do seminário, com o título Segurança nas Universidades: Tensões e Debates.

Foto 3. Jacqueline Muniz, de cabelos curtos alaranjados e óculos escuros, fala ao microfone diante de uma tela de projeção. Ela veste roupa escura e uma saia estampada. No slide, lê-se Policiamentos no campus universitário. A sombra da palestrante aparece sobre a projeção.